sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Minha primeira maratona // Desbananando sonhos

Rio de Janeiro. 26 julho de 2015. Agradáveis 21°C. Paisagem estonteante. 26 mil pessoas correndo. Muito sofrimento. Muita emoção. Ingredientes perfeitos para a primeira maratona da vida!


A primeira maratona da vida é sempre algo inesquecível. Acho que não tem como ser diferente. Os 42,195km tem uma magia quase que inexplicável e só quem já fez sabe do que eu estou falando. Vou tentar transmitir um pouco do que eu vivi no último domingo, mas deixo claro desde o início, viver o que aqui descrevo deveria ser mandatório a todo corredor. Uma vez na vida, pelo menos uma vez na vida, todo mundo deveria correr uma maratona.


Tudo começou com um sonho: eu ainda quero ser maratonista! Sabia que tinha duas pedreiras pela frente: o treinamento e a prova em si. Correr uma maratona requer preparação adequada. Muito volume, muito treinamento. São meses de preparação tentando buscar o volume necessário para conseguir vencer 42,195km. Talvez essa seja a parte mais desafiadora. Na correria do dia-a-dia é difícil encontrar parceria, e correr mais de 20km sozinha sempre é tarefa level hard. Quando não se tem local apropriado para tal então, as coisas ficam ainda mais complicadas. Mas enfim, apesar de tudo, acho que a preparação foi realizada dentro do planejado (agradeço aqui minha coach querida Sílvia Paz).

Nos dias prévios à prova, a emoção foi se aproximando timidamente. O clima no Rio estava bacana demais. A cidade já respira esporte naturalmente e com a aproximação da maratona era notório que algo muito grande se aproximava. Na retirada do kit deu pra sentir melhor a magnitude de uma competição com 26 mil pessoas inscritas! É povo que não acaba mais!

Na noite que antecedeu a prova eu tava MUITO ansiosa. De fato, fazia muito tempo que não ficava TÃO ansiosa. Fiz meu jantar de massas com a galera que estava com o Maratonas no Mundo no hotel, deixei tudo ajeitadinho e deitei cedo. Deitei. Porque dormir era a última coisa que meu corpo queria. A aproximação do momento tão esperado resultou num mix de felicidade, nervosismo e muita ansiedade. A última vez que olhei no relógio já era passada da meia-noite. 

Chegou o grande dia, sai do hotel pensando "Só volto aqui maratonista! Aconteça o que acontecer, eu vou cruzar aquela linha de chegada." Deixamos o pessoal na largada da meia e rumamos para o Recreio, onde nós largaríamos. Ao chegar lá, a primeira surpresa do dia: o encontro com Vanderlei Cordeiro de Lima. Existe inspiração maior? (no meu caso, só ver Fernanda Keller me deixaria mais inspirada).

7h30 em ponto largaram os 7500 guerreiros dispostos a vencer os 42km. No início é aquele tumulto. Pra quem está acostumado com provas curtas é até estranho, você quer se livrar daquela gente toda, mas não tem pra onde ir, tem que correr no ritmo de todos. Já era o primeiro teste de paciência. 3min (sim, 3minutos, muita gente!!) depois da buzina da largada passamos o pórtico. À medida que os primeiros kms foram passando, o espaço ficou mais amplo e ai pude começar a correr no pace planejado. Desde o início, a paisagem era algo inacreditável. Estar no Rio é agradecer a Deus por estar vivo e por poder contemplar tamanha beleza. 

Lá pelo km 7 a segunda surpresa do dia: Fernanda Keller (sim, ela mesma) assistindo, aplaudindo e incentivando os atletas! Não me contive e gritei "Fernanda!!!", acenando, como se fossemos amigas íntimas. kkk

Segue o baile. Nessa primeira metade da prova, fui conversando com meu amigo o tempo todo. De pouco em pouco apareciam umas figuras inesquecíveis, como o senhor de aproximadamente 70 anos que corria descalço, o jovem que corria de  costas, o tio com a camiseta do Grêmio, etc. Tudo indo absurdamente bem, hidratação, suplementação, tudo certinho. Fechamos os primeiros 21km para 2 horas e 2min. Tudo dentro do planejado. Sabia que dali pra frente a coisa ia piorar. 

Lá pelo km 23 a coisa escrespou. Todos sabem que a segunda metade da prova é mais difícil que a primeira, pois tem duas subidas. Uma, a da Niemeyer, é de quase 4 km de subidas. Pra quem acha que correr no Rio é barbada, aconselho testar. hehe Enfim, aqui senti pela primeira vez o peso da prova. Lá pelo km 28, parecia que alguém me puxava pra trás, já tinha algumas dores e não corria nada confortável. Nesse meio tempo algumas coisas serviam de injeção de ânimo: o "túnel-balada", que tinha muitas luzes e música alta; a animação dos outros atletas; a paisagem; meu celular - que, por "increça que parível" era meu entretenimento, tirava fotos, filmava, e assim os kms iam passando. 

As dores foram aumentando, e no momento que estavam quase que insuportáveis, chegamos no Leblon. A energia do público fez passar por um momento todo o sofrimento. Era muita gente torcendo, gritando, aplaudindo. "Vai guerreira!" era o que mais se escutava. Emocionante demais. Dali pra frente é na garra. Tudo dói, mas você sabe que correu até ali e não vai desistir por pouco.

Na minha preparação eu tive uma pequena lesão no periforme. Tinha muito medo que ele incomodasse na prova. Incomodou, mas nada perto do que havia incomodado nos treinos (aqui meu agradecimento ao fisio mais top de todos, Dudu Martins - da QuiroFisio). O que me impressionou foi que não só o lado direito, como o esquerdo também resolveu incomodar. Além disso, meu quadríceps parecia que pular pra fora da minha coxa. Muita dor. Nos postos de hidratação de Copa tive que parar, dar uma alongada, colocar um gelo dentro da bermuda e então seguir. Aos poucos os postos foram passando, quando chegamos no final de Copa, dobramos em sentido a Botafogo e um túnel de gente nos deu um up novamente. Eram inúmeras pessoas, que pareciam ter sido contratadas para ficar ali, gritando e te empurrando para o final da prova (Show de Truman feelings). 

Quando chegamos no Botafogo, a placa dos 40km me deu um alívio. "Ufa, só faltam 2km". Foi nesse momento que, me sentindo (relativamente) bem, acelerei. Meu amigo me olhou apavorado como que dizendo "Tu tá louca? Acelerar agora?". Mas eu, que corria sem meu Garmin (deu tilti no moço, coloquei pra carregar no sábado, 100% de bateria, e domingo, NOTHING), enfim, achei que faltavam 2km. Ele me acompanhou no ritmo, e soltou um "Tá certa, só faltam 3km mesmo!". "3km????????????" :o 
Nas minhas contas faltavam 2km, mas quando a placa de 40km apareceu, na verdade, ela significava que ali começava o km 40. Aquilo me desmoronou. Psicologicamente eu já tinha aceitado que correria e levaria aquelas dores por no máximo mais 2km. Nem preciso dizer que o último km foram os 1000m mais longos da minha vida. Aquele pórtico não chegava nunca. Comecei a chorar (agora mais forte - antes vinha conseguido ser discreta). Não era possível que os últimos 1000m eram 1000m mesmo. A organização da prova deve ter se enganado.

Mas finalmente veio a última curva, e eu enxerguei o pórtico da chegada. O choro, antes de dor, agora se juntava ao choro da emoção. Nesse momento vi minha querida amiga Fran. Foi lá para me ver chegar. Que alegria e que benção ter amigos! Acelerei, aquele corredor humano merecia uma corrida digna. Nos últimos metros, uma explosão de alegria tomou conta de mim. 
CONSEGUI! Eu consegui! Foram 4h37min que jamais serão esquecidas.




Mas não pense que a dor termina aqui. Continuei caminhando um pouco, e sentia uma dor tão forte nas pernas que parecia que elas estavam prestes a explodir. Eu só queria me jogar em um canto e ali ficar. Mas precisava passar pela fila da saída. Assim que vi um espacinho vazio na grama, embaixo de uma árvore me joguei. E ali chorei. Chorei. E chorei. Acho que devo ter ficado uns 15-20min chorando. De dor, de emoção, de alegria (mas mais de dor, confesso). Ali sentada pude ver diversas outras pessoas na mesma situação. Parece cena de guerra (uma guerra feliz), todo mundo sequelado jogado no chão. Dentre essas pessoas um cara me chamou atenção. Era um homem de aproximadamente 45 anos que certamente já havia sofrido algum tipo de AVC, boca torta e tal. Ele passava de grupo em grupo ajudando as pessoas. "Deve ser médico ou enfermeiro". - pensei comigo mesmo. E a atitude dele me fez chorar ainda mais. Não podemos perder a fé no ser humano. Ainda existe sim muita gente boa nesse mundo!

Depois disso foi só festa! Descer uma escada era beeeem complicado, eu caminhava toda torta, os pés cheios de bolhas e feridas, mas o que importa? Agora sou maratonista!


Beijos emocionados

Dé ;)

2 comentários:

  1. Incrivel a emoção que vc consegue transmitir e gerar nos textos que escreves amiga. Além de maratonista, percebo que tem se transformado numa exímia reporter/jornalista....Me emocionei ao ler tudo isto!!!! Tou virando uma baita fã teu. Isto q para mim é meio dificil de chorar...Ou mlhor, tinha sido. Parabéns!!!!

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  2. Demais. Um dia chego lá. Foi minha primeira meia, e posso dizer que senti e fiz as mesmas coisas. E a grama, na sombra, foi meu destino solitário tb. Ali curti minha alegria e minhas dores. Parabéns. Daniel Romani

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