quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mudando de ideia sobre a saúde // Discussões

Umas das maiores queixas que temos em consultório: "Eu já não sei o que fazer, uma hora o ovo é bom, outra hora ele mata." Realmente vivemos um verdadeiro terrorismo nutricional. Mas e você já se perguntou por que a ciência da Nutrição muda tanto?


Hoje o Desbananando tem um convidado! E um convidado de peso! Alexandre Wahl Hennigen, médico, nutricionista, (e como se duas graduações não fossem o suficiente, estudante de Educação Física) e especialista em Fisiologia do Exercício nos esclarece um pouco sobre como são feitos e interpretados os estudos na área da saúde. Eu não nego a ninguém que sou fã incondicional desse cara! Pra mim não há ninguém mais admirável e com tamanha inteligência e senso crítico que ele. Puxa-saquismos à parte, vamos ao que interessa! Boa leitura!


Não faz muito tempo que o Porta dos Fundos lançou um vídeo que retratava uma nutricionista passando uma dieta para uma paciente no seu consultório. Durante a consulta, a nutricionista esclarecia dúvidas, dando a entender que as informações mudavam corriqueiramente, e que ela se mantinha atualizada através de diversos meios eletrônicos. Embora o grupo tenha inserido muito humor na sua produção, também há elementos verdadeiros ali. Prova disso é que muitas pessoas se sentiram representadas, seja como profissional, seja como cliente.



Quem não está envolvido com o meio científico pergunta-se por que as recomendações mudam tão rapidamente. Mais intrigante do que isso é tentar entender como algo tão mutável como a ciência pode basear condutas que vão definir se vamos ter uma saúde melhor ou pior. Como o Luís Fernando Veríssimo já escreveu: quem vai nos indenizar por todos os ovos que deixamos de comer porque os médicos e os nutricionistas diziam que faziam mal, para depois mudarem de ideia e acreditarem que fazem bem?

Essas dúvidas aparentemente simples, formuladas muitas vezes ao longo de uma refeição entre amigos, são o objeto de estudo da Epidemiologia, área do conhecimento que tenta quantificar o efeito de cada intervenção na proteção ou no risco a saúde de um indivíduo. Para chegar a tais conclusões, são feitos estudos epidemiológicos. Antes de iniciar, o grupo responsável pela sua execução precisa definir desfechos, que podem ser de dois tipos: duros ou intermediários. Vou explicar os dois de forma muito superficial.

Desfechos duros são aqueles que têm impacto direto na saúde: morte, enfarto, acidente vascular cerebral, cegueira, perda de peso, ganho de massa muscular. Desfechos intermediários, em contrapartida, não terão impacto direto na saúde de uma pessoa. Eles são o que se acredita que possa causar os desfechos duros, através de correlações. Por exemplo: colesterol alto é um desfecho intermediário para enfarto e acidente vascular cerebral; valores altos de hemoglobina glicada relacionam-se a probabilidade de um diabético ficar cego; níveis de alguns hormônios, como testosterona, GH e cortisol podem ser associados ao ganho ou à perda de massa muscular. Mas eles não comprovam que os desfechos duros vão acontecer.
Poucos estudos têm desfechos duros. A maior parte utiliza-se de desfechos intermediários, porque são mais simples de serem realizados, mais rápidos e mais baratos. Seus resultados podem ser extrapolados e conclusões sobre desfechos duros podem ser inferidas, mas apenas se comprovariam através de novos estudos com menos limitações.

É o que acontece com suplementos de aminoácidos. Até hoje não foi comprovado que a suplementação de aminoácidos isolados, como os BCAA, tenha algum benefício no ganho de massa muscular ou no desempenho de um atleta. O que se sabe é que esses aminoácidos compõem grande parte das fibras musculares e são catabolizados durante exercícios físicos. Cria-se a então a hipótese que a sua suplementação poderia ser benéfica. Os suplementos de arginina, aminoácido precursor do óxido nítrico, também não parecem ter qualquer benefício. É verdade que o uso desse produto aumenta a vasodilatação, mas daí a haver melhora de desempenho físico existe um abismo escuro que ainda não foi adequadamente estudado, ou que demonstrou justamente a ineficácia dessa prática. Ainda falando de aminoácidos, alguns suplementos prometem aumentar a secreção de hormônio do crescimento. De fato, ornitina e mais alguns compostos, quando administrados diretamente na circulação sanguínea, causam um aumento nos níveis de hormônio do crescimento. Entretanto, a ingestão deles não parece levar à mesma resposta, e também não se sabe se esse aumento da secreção do GH terá como repercussão o ganho de massa muscular buscado por praticantes de musculação.

Frequentemente os veículos de comunicação de massa tiram conclusões errôneas desses resultados e acabam por divulgá-los precipitadamente. Mais triste ainda é quando um profissional da área confirma os dados equivocadamente, dando-lhes respaldo, seja por má fé ou por desconhecimento.




Outros fatores podem interferir nos resultados dos estudos. Há algumas décadas, acreditava-se que compostos antioxidantes, como vitaminas e minerais, poderiam ser úteis para evitar o envelhecimento e prevenir o surgimento do câncer. Essas associações foram feitas a partir de estudos que relacionaram níveis altos de alguns desses compostos com diminuição da mortalidade por certos cânceres. É um desfecho duro? Sim. Isso significa que se suplementarmos vitaminas e minerais as pessoas terão menos câncer? Não. Infelizmente, os ensaios clínicos que verificaram essa associação concluíram justamente o contrário: quem suplementou vitaminas teve maior risco de câncer. Isso não acontece com as pessoas que adquirem esses compostos a partir da alimentação. Por quê? O que as frutas e os vegetais têm na sua composição que nos protege de alguns tipos de câncer? Ninguém sabe ao certo, mas há muitas substâncias que interagem entre si e com o organismo, protegendo-o sem causar malefício. Ainda temos muito mais dúvidas do que certezas.

Por falar em vitaminas e minerais, vale a pena lembrar também de outro fator que define a má qualidade de alguns estudos: o patrocínio da indústria. Com mais dinheiro disponível é possível fazer trabalhos já direcionados para uma conclusão. Além disso, caso a indústria não obtenha o resultado esperado, ela pode simplesmente optar por não o publicar.

Agora você deve estar se perguntando: o que eu posso fazer então para ter saúde?
Algumas práticas parecem estar bem estabelecidas. Comer frutas e verduras em abundância. Evitar carnes vermelhas. Dar preferência para alimentos cozidos ao invés de alimentos fritos, mas sem eliminar óleos e gorduras da sua vida. Comer nozes e castanhas. Jamais fumar. Reduzir a ingestão de bebidas alcoólicas. Meditar, ler e manter boas relações sociais para desenvolver a mente e o espírito. Dormir. E o mais importante de tudo: fazer exercícios regularmente. Você não precisa correr uma maratona, mas deve ficar ofegante por pelo menos trinta minutos ao dia e associar a isso um trabalho de força.


Esperamos que o texto tenha sido esclarecedor para todos vocês!

Um grande beijo, 
Dé e Gi 

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