quarta-feira, 4 de junho de 2014

Obesidade Infantil // Nutrição Infantil

Fui convidada para falar sobre obesidade Infantil em uma entrevista e isto acabou me levando a escrever este texto.  Este é um assunto que realmente me comove. Trabalhar a educação nutricional neste período da vida é crucial. Além dos hábitos adquiridos na infância, o estado nutricional também tende a permanecer na vida adulta [1,2]. Ou seja, a criança obesa será um adulto obeso, ou um adulto eutrófico que vai sofrer muito pra se manter no peso adequado.





Prevalência

No Brasil, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar de 2008-2009 a prevalência de excesso de peso é de 33,5% e de obesidade de 14% entre crianças de 5 a 9 anos de idade [3].  A obesidade é caracterizada pelas crianças acima do escore z + 2 ou acima do percentil 97. Já o excesso de peso é caracterizado por todas crianças que estão acima do escore z +1 ou acima do percentil 85, aproximadamente. Para ficar claro, o percentual de excesso de peso inclui também o percentual de obesidade.

Alguns dados otimistas foram publicados neste ano. Nos Estados Unidos a média do percentual de excesso de peso e obesidade não aumentou em comparação aos dados de 2003-2004. Os dados mais positivos foram observados nas crianças de 2 a 11 anos, uma vez que se pôde observar até mesmo uma pequena redução na prevalência do excesso de peso [4].





Figura 1. Na figura acima mostro como funciona uma curva. Esta é uma curva para classificar a circunferência do braço de crianças, mas todas curvas funcionam da mesma maneira. Nela você pode ver a curva em verde, significa o Percentil 50, ou seja, a maioria das crianças da população tem as medidas do P50 e estas são medidas consideradas adequadas. Acima desta linha temos o percentil 85 e o 97. Pode-se perceber que o P97 representa valores bem extremos da curva, é ai que estarão as crianças com obesidade da curva do peso e IMC.

Marketing de Produtos Alimentícios para Crianças

Em abril deste ano a CONANDA (Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), órgão responsável por elaborar normas gerais da política nacional de atendimento dos direitos da criança e do adolescente, lançou a resolução nº163, a qual considera abusiva a propaganda voltada à criança. A resolução elenca os principais aspectos abusivos utilizados em publicidade infantil: linguagem infantil, excesso de cores e efeitos especiais; trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de crianças; representação da criança; personagens ou apresentadores infantis; desenho animado ou de animação; promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis, entre outros.  Após isso, quarenta e cinco entidades assinaram uma moção de apoio à resolução 163/14 da Conanda. Entretanto, a resolução parece ainda não ter força suficiente contra as grandes empresas alimentícias, uma vez que não estabelece qualquer sanção no caso de descumprimento das orientações.

Obesidade X Produtos Alimentícios


Há quem não veja problema quanto às publicidades dirigidas às crianças. Entretanto estudos sobre os hábitos alimentares dos escolares, tanto em pesquisas nacionais e internacionais, mostram que as crianças frequentemente consomem produtos industrializados, tais como refrigerantes, “fast food”, salgadinhos e biscoitos [5,6,7,8,9,10]. E, ainda, segundo a fonte do “Targeting children with Treats” crianças com excesso de peso aumentam o consumo de alimentos junkfood em 134% quando expostas à sua publicidade. Bom, afinal quem não gostaria de tomar um achocolatado quando a propaganda diz que ele é “seu amiguinho” ou deixar de tomar o cereal se é ele que te da “energia e força”? E uma mãe, por que não dar o iogurte petit suisse se ele “vale por um bifinho”? POIS É. 


 Só que na verdade, produtos processados feitos para serem “prontos para comer” facilitam o consumo exacerbado de calorias, uma vez que estimulam o ato de comer entre as refeições [11,12]. E isto se não substituir as refeições principais. Muito se vê na prática a criança que devora um pacote de balas, por exemplo, perto do horário de uma das grandes refeições e chega à mesa sem fome. Claro, pois ela esta completamente saciada em relação a termos energéticos. O que o organismo dela não consegue perceber de imediato é que não foi consumido nenhum nutriente. 


No meu trabalho de conclusão de curso, trabalhei sobre a influência do consumo de produtos processados (aqueles mesmo que falei há alguns posts atrás) e sua influência no consumo de nutrientes. Na nossa amostra de entorno de 300 crianças, a média de energia diária consumida proveniente de produtos processados foi de – pasmem -  50%. Traduzindo em números simples – mas não reais - uma criança que consome 2000kcal, 1000kcal esta vindo de produtos industrializados, se igualando com a participação de alimentos in natura (arroz, feijão, leite, frutas e verduras) que contribuem para as outras 1000kcal.  Verificamos, ainda, que as crianças que mais consumiam energia da dieta proveniente de produtos alimentícios prontos para o consumo eram também as que consumiam mais calorias, carboidratos, gorduras totais, gorduras saturadas e sódio em comparação às crianças que tinham menor participação de processados no consumo energético total. Também foi visto um MENOR consumo de proteínas e fibras  nas crianças que consumiam um maior percentual de processados.  


            Tudo isto reflete na saúde das crianças, e para não alongar muito o texto, quero deixar que a parte da relação com a saúde você perceba assistindo ao magnífico e emocionante documentário Muito Além do Peso, dirigido por Estela Renner. Crianças pequenas sofrendo e falando de queixas que você juraria que apenas adultos, ou apenas idosos, falariam. Crianças sem qualidade de vida, que tem que se preocupar em medir a glicemia e tomar as injeções de insulina ou que não conseguem correr, pois se sentem muito cansadas. O vídeo é emocionante e me fez chorar em muitas partes, acho inadmissível deixarmos essas coisas acontecerem. Revolte-se você também:





Termino o texto com as últimas falas do documentário e também o desejo, de um dos ídolos nosso aqui do blog, Jamie Oliver:


 “Meu desejo é que cada um de vocês ajude a criar um movimento forte e sustentável para educar cada criança sobre alimentação. Inspirar famílias a cozinhar de novo e encorajar as pessoas de todas as partes a lutar contra a obesidade.” 
 

Abrimos o espaço para dúvidas e discussões,

Abraços,
Gi e dé (:

Referências:



1. Craigie AM, Lake AA, Kelly SA, Adamson AJ, Mathers JC. Tracking of obesity-related behaviours from childhood to adulthood: A systematic review. Maturitas 70. 2011; 266-284. doi: 10.1016/j.maturitas.2011.08.005.



2.    Gardner DS, Hosking J, Metcalf BS, Jeffery AN, Voss LD, Wilkin TJ.  Contribution of early weight gain to childhood overweight and metabolic health: a longitudinal study (EarlyBird 36). Pediatrics. 2009; 123, e67-73. doi: 10.1542/peds.2008-1292.

3.  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009.  Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010

4.  Cynthia L. Ogden, PhD; Margaret D. Carroll, MSPH; Brian K. Kit, MD, MPH; Katherine M. Flegal, PhD. Prevalence of Childhood and Adult Obesity in the United States, 2011-2012. JAMA, 2014.

5. Carmo MB, Toral N, Silva MV, Slater B. Consumo de doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar entre adolescentes da rede pública de ensino de Piracicaba, São Paulo. Rev Bras de Epidemiol. 2006; 9(1): 121-30.

6. Rivera FSR, Souza EMT. Consumo alimentar de escolares de uma comunidade rural. Comun Ciênc Saúde. 2006;17(2): 111-119

7.      Babey SH, Wolstein J & Diamant AL. Food Environments Near Home and School Related to Consumption of Soda and Fast Food. Los Angeles, CA: UCLA Center for Health Policy Research, 2011.

8.    Langellier BA. The food environment and student weight status, Los Angeles County, 2008-2009. Prev Chronic Dis. 2012;  9:110191.

9.  Ford CN, Slining MM, Popkin BM. Trends in dietary intake among US 2 to 6-year-old children, 1989-2008. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2013; 2212-2672. doi: 10.1016/j.jand.2012.08.022

10. Johansson I, Holgerson PL, Kressin NR, Nunn ME, Tanner AC. Snacking Habits and Caries in Young Children. Caries Res. 2010; 44:421-430. doi: 10.1159/000318569

11. Ifland JR, Preuss HG, Marcus MT, Rourke KM, Taylor WC, Burau K, et al. Refined food addiction: A classic substance use disorder. Med Hypotheses. 2009;72(5):518-26.

12. Yeomans MR, Blundell JE, Leshem M. Palatability: response to nutritional need or need-free stimulation of appetite? Brit J Nutr. 2007;92 Suppl 1:3-14. doi: 10.1079/BJN20041134

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário